O custo emocional de viver fora do tempo cronológico
Se você analisar o seu sofrimento— a angústia, o arrependimento, o medo, a ansiedade —, perceberá que quase nenhum deles está acontecendo neste exato segundo.
Neste momento, enquanto lê estas linhas, você está (provavelmente) seguro, respirando, sentado ou deitado. Não há um tigre atacando você. Não há uma crise acontecendo na página deste livro. No mundo físico, o “agora” é geralmente neutro ou administrável.
O problema é que nossa mente raramente está onde o corpo está.
Ela está viajando no tempo na maionese. Ela está revisitando uma conversa difícil de três anos atrás ou ensaiando uma tragédia imaginária que pode (ou não) acontecer na próxima terça-feira.
Neste capítulo, vamos aprender a reconhecer quando a mente faz as malas e parte para o tempo psicológico, deixando o corpo vazio no presente.
Os dois grandes destinos: Passado e Futuro
Quando a mente sai do agora, ela geralmente pega um de dois caminhos: a Ruminação ou a Ansiedade Antecipatória.
- Ruminação (O museu da dor): É quando a mente fica presa no passado. “Por que eu disse aquilo?”, “Eu deveria ter aceitado aquela proposta”, “Se eu tivesse feito diferente…”.
A ruminação é uma tentativa falha do cérebro de resolver um problema que já não existe. Ele repassa a fita repetidamente, buscando um final diferente, mas o final nunca muda. O custo disso é a depressão e a culpa. Gastamos energia vital hoje para lutar contra um fantasma de ontem.
- Ansiedade Antecipatória (O cinema de catástrofes): É quando a mente se projeta para o futuro. “E se eu perder o emprego?”, “E se eles não gostarem de mim?”, “E se der tudo errado?”.
A ansiedade é o cérebro tentando controlar o incontrolável. Ele cria cenários terríveis na esperança de se preparar para eles. Mas o corpo não sabe distinguir imaginação de realidade: ele libera cortisol e adrenalina como se a catástrofe estivesse acontecendo agora. Você sofre a dor do evento dez vezes antes de ele acontecer (se é que vai acontecer).
O custo do tempo psicológico
Viver fora do agora é caro. É como deixar o motor do carro ligado na garagem a noite toda: você não vai a lugar nenhum, mas, de manhã, o tanque está vazio, ou sem carga, e o motor superaquecido.
O tempo que só acontece na nossa cabeça é essa dimensão ilusória onde passamos a maior parte da vida. Não estamos falando do tempo cronológico (saber que você tem uma reunião às 14h é útil e necessário). Estamos falando da obsessão mental com o tempo.
Quando você está lavando a louça pensando na briga de ontem, você não está lavando a louça. Você está brigando. E como você não está presente na ação física, a tarefa se torna um fardo, algo a ser “eliminado” para chegar ao próximo momento. Vivemos esperando o fim de semana, as férias, a aposentadoria, tratando o momento atual apenas como um obstáculo irritante.
A liberdade começa quando percebemos que o futuro nunca chega. Quando ele chega, ele se chama “agora”. Se você não souber permanecer no agora, você nunca estará no futuro que tanto deseja; quando chegar lá, sua mente já terá saltado para o próximo objetivo.
A meta não é “Não Pensar”
É importante esclarecer: o objetivo do Observador não é tornar-se um vegetal que não planeja o futuro nem lembra do passado. Planejar é útil. Aprender com o erro é vital.
O problema é quando você não escolhe ir lá. É quando estamos brincando com uma criança, que precisa da nossa atenção, de repente, somos sequestrados por uma preocupação de trabalho.
- Planejamento Consciente: “Vou sentar por 20 minutos para planejar minha semana.” (Isso é funcional).
- Preocupação Inconsciente: Tentar resolver a semana inteira na sua cabeça enquanto toma banho. (Isso é disfuncional).
O Observador percebe o deslocamento. Ele diz: “Olha, minha mente foi para a reunião de amanhã. Mas meu corpo está aqui debaixo do chuveiro. Vou voltar para a sensação da água.”
